Em meio a composição que fiz com plantas em jarros de tamanhos e cores diversas, sobre ladrilhos hidráulicos, também em estampas diversas, vários níveis de alturas sobre caixotes de feiras, atualmente com aspecto mais sofisticado em pátina branca, me deparo a contemplar, em largo tempo, as inúmeras flores que cultivei com tanto esmero.
E nesse sofá de jardim, no alto da minha terasa, em plena primavera ainda fresquinha, penso nas cores, nas flores e no céu de Monet. Decido então, vir aqui e escrever de maneira mais suave e, diria em certo tom Kitsch¹ sobre a primavera na Europa, e sobre o pintor Monet. E assim, estrear este blog.
Aliás, os convido a sempre ler e divagar comigo opiniões, leituras de mundo, pensamentos, conceitos tanto das Artes visuais como de literatura, por meio deste blog, que escrevo com o cunho de pontuar com leveza, tudo que penso em dizer.
Retornando a estes tempos de perfumes, vento ameno e cores, nestes dias que se alongam em luz dourada, sinto um eco do próprio paraíso de Claude Monet florescer ao meu redor. Olho para os jardins vibrantes de rosas de todas as cores do parque aqui perto de casa, que explodem em vida e sou imediatamente transportada para os campos de Giverny, onde o mestre impressionista encontrou sua inspiração mais pura. É como se cada pétala, cada raio de sol que se derrama sobre as flores, fosse uma pincelada invisível de seu gênio (eu falei que seria kitsch).
A Poesia nas Cores de Monet
Não sei se concorda comigo, mas sou da opinião que Monet não pintava apenas flores; ele pintava a alma das flores, a efemeridade de um instante banhado em luz. Quadros em meio a uma quase invisível bruma de sonho.
Este pintor francês, nascido em Paris em 1840 compreendeu que a beleza não está apenas na forma, mas na forma como a luz a toca, como o ar a envolve. Seus nenúfares, por exemplo, são mais do que plantas aquáticas; são espelhos líquidos do céu, que refletem as nuvens fugazes e os tons de um entardecer.
Nesta primavera europeia, vejo, para além dos ninhos imensos das cegonhas nos altos dos postes, o azul etéreo do céu, que se mistura aos lilases suaves das alfazemas e aos rosados das peônias, de uma forma que só Monet poderia ter imaginado. E sim, eu tenho alfazemas.As cores não são estáticas, mas dançam, transformam-se com a passagem do sol. O amarelo vibrante de um campo de canola, que agora irrompe na paisagem, é o mesmo amarelo que o artista usava para capturar a luz que se derramava sobre suas papoulas, infundindo a tela com alegria e vitalidade.
O Céu Como Tela Suprema
E o céu… e que céu! Na Europa, nesta época do ano, o céu é uma obra de arte em constante mutação. As nuvens que viajam lentamente, ora brancas e fofas, ora com tons acinzentados prenunciando uma chuva passageira, são como as pinceladas soltas e livres que Monet usava para capturar a atmosfera. E Monet conseguiu imprimir céus não que fossem não apenas um fundo azul, mas um personagem ativo na paisagem, que influencia cada cor do jardim.
Sinto a primavera de Monet hoje, aqui sentada sob uma enorme sombrinha vermelha, em cada brisa que agita as folhas das árvores, em cada matiz de verde que surge, do mais tenro broto aos pinhos centenários.
É uma sinfonia de tons, uma celebração da vida que irrompe após longos dias do passado inverno. E, como o grande mestre do Impressionismo, sou convidada a ver a beleza não apenas no que é evidente, mas no que é fugaz, na forma como a luz se envolve com a cor em um momento de sensações indizíveis.
Giverny Hoje: O Santuário Aberto ao Mundo
E para os que, como eu, buscam mergulhar ainda mais fundo nessa experiência, o próprio Jardim da casa onde Monet morou e trabalhou por mais de 40 anos, em Giverny (França)2. abre suas portas aos visitantes. Primavera vindoura, lá estarei e, tenho a certeza que estarei suspensa ao andar pelos mesmos caminhos que o pintor das nuances percorreu, a contemplar a ponte japonesa que ele tanto pintou e me perder no tempo entre as inúmeras variedades de flores que inspiraram uma das maiores revoluções da arte.
Atualmente, turistas de todo o mundo visitam Giverny, especialmente na primavera e no verão, mais precisamente entre abril a outubro, para testemunhar a beleza que Monet tão meticulosamente cultivou e pintou em quadros belíssimos. Caminhar por lá é sentir-se dentro de uma de suas telas, com a luz filtrando-se pelas folhas, os reflexos na água e o aroma das flores perfumando o ar.
Aposto, sem risco de perder, que cada visita é uma imersão sensorial, um convite para experimentar o mundo através dos olhos de um mestre. As visitas públicas permitem que o legado de Monet continue vivo, não apenas nas galerias de arte, mas na própria paisagem que o moldou.
É um privilégio imensurável vivenciar esta estação, com a consciência aguçada pela genialidade de Monet. As flores cultivadas por três anos, em meu jardim, o céu que me cobre, tudo parece mais intenso, mais vivo, mais impressionista. Em termos análogos, diria que a vida voltou. E saber que milhares de pessoas podem compartilhar essa mesma sensação no jardim original de Giverny torna a experiência ainda mais grandiosa…sem exageros de mau gosto, lá nos encontraremos.
Por Adriana Duarte
@pinturices
De Aqui, 13/05/2025.
¹ No dicionário Aurélio (atualizado), “kitsch” é definido como uma expressão artística ou um objeto de mau gosto, geralmente exagerado, pretensioso e que imita obras de arte ou estilos, mas sem qualidade ou originalidade. É uma estética que se considera vulgar e de baixo nível. Usei no texto, como definição para um estilo fora de moda, brega, mesmo.
2Visita virtual em https://fondation-monet.com/visite-virtuelle/
