Vejo Pinceladas no cinema de Allan Cedrak
Por Adriana Duarte
Nesta semana em que posto no Instagram (@pinturices) filmes que são pontuais para mim, por ocasião da Semana do Cinema Brasileiro, olho para o efervescente cenário artístico brasileiro, em suas múltiplas faces.
Encontro, neste cenário talentos que nos convidam a enxergar o mundo sob uma nova luz, onde a fronteira entre o real e o onírico se esvai. Allan Cedrak(@allancedrakarts), um artista potiguar radicado no Rio de Janeiro, é um desses visionários. Cineasta, ator, pintor, cantor, compositor e professor de artes, Cedrak tece narrativas coloridas que, assim como um fio de seda invisível, nos conectam à essência mais pura da emoção humana, permeadas por uma delicadeza que diria, beira o realismo mágico.
Sua obra cinematográfica, em particular, distingue-se pela forma como aborda temas complexos com uma sensibilidade ímpar. Em vez de mergulhar no grotesco ou no dramático explícito, Cedrak opta por revelar as fissuras da alma de seus personagens através de gestos sutis, olhares carregados e um silêncio eloquente. É um convite à introspecção, a sentir mais do que a racionalizar.
Um exemplo pungente dessa abordagem é o curta-metragem “O Voo do Pássaro Multicor“(2020)[1]. Nele, somos apresentados a uma velha palhaça que, acometida pelo Alzheimer, personagem da atriz Carminha Dantas(@carminha.dantas.3), flutua entre memórias e esquecimentos. A interpretação sublime da atriz veterana é um espetáculo à parte, capturando a fragilidade e a beleza de uma mente que se esvai.
Com a participação da atriz e bailarina Carolina Teixeira(@emcimadomundo), Cedrak não nos mostra a doença em sua crueldade nua e crua, mas sim as reminiscências, os brilhos efêmeros de lucidez, e a dignidade que permanece. É como se a arte de fazer rir, mesmo perdida em seu labirinto interior, ainda pudesse voar em um céu particular, pintado com as cores de suas lembranças mais queridas e a vontade de voltar a atuar nas ruas. A emoção que a obra evoca é palpável, um nó na garganta que ressoa com a melancolia agridoce da memória e do tempo.
Um toque de genialidade que eleva a delicadeza visual de “O Voo do Pássaro Multicor” reside na ilustração e animação de José Marinho Neto(@jn_marinho), que, como bem apregoa o multifacetado Cedrak, compõe a obra com a suavidade de cenas em aquarela. Essas inserções oníricas e fluidas reforçam o caráter etéreo da memória e do sonho, tornando a experiência ainda mais imersiva e poética. Complementando essa visão artística, a direção de fotografia ficou a cargo do talentosíssimo fotógrafo Marcos Sá Trigueiro(@marcosatrigueiro), que com sua sensibilidade e domínio técnico, capturou cada matiz de luz e sombra, valorizando a profundidade emocional da narrativa.
Carolina Teixeira, que empresta sua expressividade extrema e delicada a “O Voo do Pássaro Multicor”, também atua no média-metragem “Vermelho Abajur“(2006)[2]. Ambientado no icônico Beco da Lama, em Natal, um conhecido ponto boémio, lugar que por si só já carrega uma aura de histórias e personagens peculiares, o filme mergulha em um universo onde o cotidiano se entrelaça com o insólito. Cedrak utiliza o cenário urbano com maestria, transformando-o em um personagem em si, que respira e pulsa com as vidas que o habitam. É um convite a observar a beleza nas frestas da realidade, onde um abajur vermelho pode iluminar segredos e desvendar mundos ocultos.
O trabalho de Allan Cedrak, é um lembrete de que a arte não precisa gritar para ser ouvida. Às vezes, um sussurro, uma pincelada delicada, um silêncio carregado de significado, podem tocar a alma de forma mais profunda e duradoura. Sua capacidade de transformar temas sensíveis em poesia visual é um verdadeiro presente para os olhos e para o coração, um convite a desvendar a magia que reside no ordinário, e a encontrar a beleza nas nuances mais sutis da existência.
E é com grande satisfação que esta singela homenagem a este artista se insere na minha Semana do Cinema Brasileiro. Em um período dedicado a celebrar a riqueza e a diversidade da nossa produção cinematográfica, destacar um cineasta de múltiplos interesses e atuações como Cedrak que com suas obras transita por diferentes linguagens artísticas e aborda a sensibilidade humana de forma tão singular, é mais do que justo.
Cedrak com seus filmes, não apenas enriquecem o panorama do cinema nacional com sua estética e narrativas diferenciadas, mas também servem como um lembrete do poder transformador da arte em emocionar, provocar reflexão e conectar as pessoas às suas próprias vulnerabilidades e belezas. Celebro, com isso, a inventividade, a profundidade, as cores e a paixão que movem o cinema brasileiro.
Por Adriana Duarte
(@pinturices)
De aqui, 18/6/2025.
[1] [1] O Voo do Pássaro Multicor está disponível no YouTube, no canal Allan Cedrak 3000. https://www.youtube.com/watch?v=-eXWk-e7TeU
[2] O filme Vermelho Abajur está disponível no YouTube , no canal Allan Cedrak 3000l https://www.youtube.com/watch?v=50TMvjB53AI
