Flores de Cacto

Em tempos contemporâneos, em que vivemos em momentos rotineiros que muitas vezes nos arrasta para a vertigem da velocidade e da desconexão ao essencial, as palavras que usei hoje para uma personagem ainda em gestação, ressoam como um chamado à pausa, à contemplação.

“Eu sigo acreditando que as flores nos chegam para lembrar da necessidade da reconexão com o belo, com a essência da natureza, com a nossa alma primeira.”

Essa afirmação, simples em sua beleza, foi inspirada quando, logo cedo, me deparo com as três flores que um dos meus cactos me regalou e que só duram um dia, hoje. De imediato, saco a câmara para registro e logo enviar aos mais chegados com um festivo “Bom diaaaa”. Por carregar, a tal frase acima, uma profundidade que se desdobra nas artes visuais, na escrita e, por que não, na música, é que aproveitei e já a introduzi na minha personagem, em um novo romance, ainda no forno.

As flores, em sua efemeridade e perfeição intrínseca, são embaixadoras silenciosas de uma verdade. Eu creio mesmo que elas nos convidam a desacelerar, a observar a delicadeza de uma pétala, a complexidade de uma cor, a sinfonia de um perfume, até mesmo, o clamor de um cuidado.

Não por acaso que, desde tempos imemoriais, as flores inspiram artistas de todas as vertentes. Na pintura, elas adornam telas, como no quadro do pintor holandês Vicent Van Gogh, “Doze Girassóis em um Jarra[1]“e mais. Em esculturas, ganham vida em formas muitas vezes, eternas. Na poesia e na música são metáforas para a vida, como na composição de Cartola, “As Rosas Não Falam[2]” na qual marcam o amor já ido e a passagem do tempo. Seria essa atração inata pelas flores, em sua essência, um anseio pela reconexão com o belo que reside na natureza, e consequentemente, dentro de muitos de nós?

As artes visuais e a escrita, por sua vez, são veículos poderosos para essa reconexão que tanto falo. O pincel sobre a tela, as palavras digitadas a contar a vida de mais uma personagem – são gestos que buscam traduzir o invisível em algo tangível. Um artista visual, ao capturar a luz em uma paisagem ou a expressividade em um rosto, está convidando o observador a uma jornada interior, a revisitar emoções e memórias. Da mesma forma, um escritor, ao tecer palavras e construir narrativas com elementos que chegam, nos transporta para outros mundos ou nos ajuda a decifrar o nosso próprio. É nesse mergulho na criação e na contemplação que encontramos um eco da nossa alma primeira, daquele lugar de autenticidade e pureza que muitas vezes fica soterrado pela rotina.

Por meio desse meu regalo de hoje, as três flores brancas e efémeras do cacto, da imersão em uma pintura vibrante, da leitura de um poema que nos toca a alma ou da melodia que nos faz vibrar, todas essas experiências artísticas convergem para um mesmo ponto: a redescoberta de nós mesmos, da nossa essência da natureza e, em última instância, da nossa alma primeira.

Sigo crendo que as flores nos lembram que, em meio ao caos e à pressa, a beleza e a verdade estão sempre à nossa espera, prontas para nos acolher de volta, em uma visão para dentro, ao nosso próprio ser.

Por Adriana Duarte

De Aqui, 18 de junho/2025.

(@pinturices)


[1] O quadro “Doze Girassóis em um Jarra[1]”do pintor Vicent Van Gogh, de 1888, em óleo sobre tela, com as dimensões 91×72 pode ser visto e apreciado na Neue Pinakothek, em Munique, Alemanha.

https://www.pinakothek.de/en/neue-pinakothek

https://discografia.discosdobrasil.com.br/discos/cartola-1976

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Dridu

Artista Plástica de profissão. Desenhei tanto a vida que precisei desenhar também meus pensamentos.