Celebração da Argila: Uma Homenagem à Trajetória de Regina Guedes

Por Adriana Duarte

Dia 28 de maio é comemorado o Dia do Ceramista. Neste dia, publiquei no meu perfil (@pinturices) do Instagram um carrossel em homenagem à ceramista Regina Guedes, para mim, pessoa e artista única. Única, peculiar, especial, de delicado e sofisticado traço em sua arte. 

Para nós, amantes da argila e das infinitas formas que ela pode assumir, esta data pode representar um dia de profunda reverência. É a data para celebrar as mãos que moldam, as mentes que concebem e os corações que se entregam a uma das mais antigas e fascinantes manifestações da criatividade humana.

Tive, todavia, uma inquietude por ter revelado pouco desta mulher de força de mulheres que conhecem e trilham seus caminhos certas do que as movem. E sim, seja pela tal inquietude ou mesmo até, pelo merecimento, trago novamente, ainda que após a celebração do dia do ceramista, mais dessa artista que ainda que tenha atravessado oceanos para se formar como a vemos, atua na mesma cidade que a viu nascer. 

Como complemento, ainda permeando a celebração citada, trago mais da grandiosa potiguar Regina Guedes. Ter a sorte de tê-la como professora na Universidade Federal e, hoje, como uma amiga querida, é um privilégio que me permite testemunhar de perto não apenas sua maestria técnica, mas também a profundidade de seu estudo, a persistência incansável e o amor visceral que dedica à cerâmica há mais de 50 anos.

Regina Guedes é um farol de inspiração, uma prova viva de que a arte da cerâmica é um caminho de constante aprendizado, paixão inesgotável, profundas pesquisas e, até mesmo, forma de vida.

Para antes da entrevista com Regina, e com meus impulsos de fundamentar tudo, vamos visitar um fragmento da história da cerâmica.

A Cerâmica: Uma Linguagem da Humanidade, do Útil ao Belo

A história da cerâmica é a própria história da humanidade. Desde os primeiros vasos utilitários, essenciais para armazenar alimentos e água nas civilizações mais antigas, a argila tem sido uma confidente silenciosa de nossa jornada. Ela nos conta sobre os rituais do Neolítico, as sofisticadas culturas do Oriente Médio, a grandiosidade do Império Romano e a delicadeza da porcelana chinesa.

A cerâmica transcendeu sua função prática muito cedo. Peças que hoje admiramos em museus – como os intrincados vasos da Grécia Antiga, que narravam mitos e cenas cotidianas com uma precisão impressionante, ou as vibrantes figuras de terracota pré-colombianas, que carregavam um profundo significado espiritual – são testemunhos de como o artesão, desde sempre, infundiu beleza e significado em suas criações. A cerâmica é a prova de que a arte pode ser tão essencial quanto a utilidade.

No Japão, por exemplo, a cerimônia do chá elevou a simplicidade dos objetos de cerâmica a um patamar de contemplação estética e filosófica. O conceito de wabi-sabi, que celebra a imperfeição, a transitoriedade e a beleza rústica, encontrou na cerâmica seu campo mais fértil, transformando cada tigela em uma peça única e profundamente significativa.

Mestres da Argila: Ceramistas Famosos e Suas Marcas

A cerâmica, em sua longa história, foi moldada por artistas que elevaram o barro a um patamar de alta arte. No século XX e além, diversos ceramistas se destacaram por sua inovação e maestria. Nomes como Bernard Leach (1887-1979), uma figura central no movimento de cerâmica de estúdio, que mesclou a tradição oriental com a ocidental, influenciando gerações de artistas. Suas peças são aclamadas por sua simplicidade, funcionalidade e beleza orgânica, refletindo uma filosofia de vida e arte.

Outro gigante foi Shōji Hamada (1894-1978), parceiro de Leach é um dos grandes mestres da cerâmica japonesa, cujo trabalho resgatou técnicas tradicionais e as infundiu com uma sensibilidade moderna, resultando em peças de uma beleza rústica e singular.

Mais recentemente, nomes como Jun Kaneko, ceramista japonês, hoje com 82 anos, com suas monumentais dangos (bolas de cerâmica) esmaltadas e vibrantes, ou Magdalene Odundo, ceramista Keniana, hoje com 75 anos, com suas formas orgânicas e elegantes que remetem a vasos ancestrais africanos, continuam a expandir as fronteiras da cerâmica como arte escultural e funcional. Cada um deles, à sua maneira, demonstra o que Regina Guedes personifica tão bem: que a argila é um material de persistência, de estudo profundo e de amor incondicional, capaz de expressar as mais complexas ideias e emoções.

Confira abaixo, a entrevista que fiz com a ceramista Regina Guedes, minutos antes dela entrar em seu espetacular e amplo estúdio/atelier, para mais contemplações, pesquisas e execuções da sua arte legítima.

@pinturices – Como você começou na cerâmica? O que te atraiu para essa arte? 

RG – O que me atraiu para essa arte é que ela engloba a pintura, o desenho e a escultura, a parte histórica e também a ciência (porque envolve a química dos materiais e a química das queimas durante o processo de feitura). Inicialmente por ser a área mais complexa e envolver mais dedicação foi o que me atraiu. 

@pinturices – De onde vem sua inspiração para criar? 

RG – Do estudo, tudo o que faço vem do meu estudo. A última exposição que realizei em Natal(RN), foi o resultado de um longo tempo de estudo em que fui 11 vezes ao Metropolitan Museum Of Art no mesmo ano, para poder estudar a cerâmica da Turquia. E é o que tem inspirado muito as minhas peças mais recentes. 

@pinturices – Como é o seu processo, do barro ao objeto final? 

RG – Isso vai depender do que eu quero fazer. Cada peça exige um processo diferente, a escultura exige um processo diferente de uma peça moldada no torno, uma peça com partes coladas requer um processo diferente da escultura e da peça moldada. Cada peça tem um processo específico para chegar ao final. Como faz muitos anos que faço, iniciei em 1974 no Bates College, onde eu fiz meu bacharelado de artes, então tive a oportunidade de experimentar inúmeras formas para cada peça e todo tipo de material.

@pinturices – O que a cerâmica representa para você hoje? 

RG – Para mim a cerâmica representa tudo de importante porque quando aprendemos sobre a história das civilizações, do Brasil e de outros tantos países, a cerâmica que é anterior à escrita diz muito sobre aquele povo e isso me fascina. Em relação à parte técnica, cada massa que eu pego, cada projeto que eu me envolvo é uma forma de fazer diferente. Então tudo é sempre inovador para mim, e esse caminho desafiador é como uma missão importante na minha vida. Para mim é muito desafiador e satisfatório pegar todos os tipos de argila, como eu já usei a ver do barro vermelho à porcelana, faiança, cerâmica pedra se transformarem em uma peça, é fascinante.

@pinturices – Qual foi o maior desafio que enfrentou como ceramista? 

RG – Meu maior desafio como ceramista seria me manter atualizada, para isso eu preciso estar sempre viajando. Nas minhas licenças como professora da UFRN, fui para os EUA porque lá eles têm programas fabulosos de design e a cerâmica contemporânea. Isso que eu gosto de fazer: estar sempre me atualizando, lendo, estudando, indo a museus.

@pinturices – Como é ser ceramista no Brasil hoje? 

RG – O Brasil é riquíssimo em cerâmica, da cerâmica indígena à cerâmica marajoara, Tapajónia, cerâmica de Cunha (município de São Paulo, famosíssimo pela arte ceramista). Nosso país tem uma riqueza de história e diversidade na cerâmica fascinante. Eu como ceramista, pessoalmente, tenho uma certa dificuldade na venda desses trabalhos em Natal/RN porque trabalho com um material específico e personalizado que encomendo com um fornecedor de São Paulo, os esmaltes a grande maioria trago dos EUA por haver marcas que possuem menos toxicidade, porque não trabalho com chumbo e sempre escolho os materiais de melhor qualidade e os que não oferecem riscos, não só a massa e os materiais, mas o processo em si que exige forno de altas temperaturas e o transporte desses materiais devido a fragilidade encarece a peça. Na minha última exposição, por exemplo, fiz três queimas: a primeira a 800 graus, a segunda a 900 graus e a terceira a 1100 graus, é um custo muito elevado de energia porque o forno usado é próprio para queima cerâmica que trouxe dos EUA. As peças acabam se tornando caras e difíceis de serem comercializadas.  

@pinturices – Um hábito ou ritual que sempre acompanha sua criação? 

RG – Meu hábito de criação é estar sempre lendo, vendo vídeos, assistindo palestras, para poder criar. Gosto de fazer dessa forma além de me enriquecer muito, saber que através da cerâmica eu posso ter acesso a conhecimento muito importante da nossa civilização, da nossa história, não só do Brasil mas de todos os lugares do mundo que já fizeram e ainda fazem cerâmica.

@pinturices – Que mensagem você deixaria para quem está começando na cerâmica? 

RG – A mensagem que tenho para dizer para quem está iniciando é que vá em frente! Vá em frente, estude, experimente! Faça todas as pesquisas possíveis para descobrir o que te interessa mais e criar em cima daquilo que você aprendeu, e como não só a parte de queima, de mistura de materiais, de técnicas, como também em termos estéticos: o que você quer mostrar? Acho uma área fascinante e sempre motivo a todos, quem quiser fazer vá fundo e faça o melhor. 

Deixo aqui o meu agradecimento a Regina Guedes por nos mostrar um pouco dessa conexão primordial com a matéria-prima da terra, que nos permite moldar o tempo e eternizar a beleza e comunicar com a estética sublime que imprime a cerâmica.

Deixo aqui um abraço a todos os ceramistas. 

De Adriana Duarte
@pinturices
De Aqui, 30/05/2025

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Dridu

Artista Plástica de profissão. Desenhei tanto a vida que precisei desenhar também meus pensamentos.