Imagem: Autorretrato Rouschach – Eu e Maria Vasconcelos, Gil Vicente, 2002, nanquim sobre papel, 152 x 168 cm.
Por Adriana Duarte
Há dias me vem à lembrança o artista plástico pernambucano Gil Vicente. Posso dizer que tive a sorte imensa de conhecê-lo e conviver em seu atelier, em Boa Viagem, Recife, bem como, nas exposições pelo Brasil e onde eu poderia estar.
Pessoa raríssima, de generosidade ímpar dos gênios, Gil Vicente tem uma arte profunda de sentimentos indizíveis, até. São cabeças, corpos a boiar em um mar interno de profundidade escura, pessoas em torno de teias e fios, sentadas, como se quisessem se comunicar por pensamentos. São obras de uma profundidade sensível.
— Quando for nomear obras, que seja em pouquíssimas palavras. Aconselhava meu amigo. — Deixe que as pessoas leiam a obra sem sugestões prévias.
E com a lembrança de Gil Vicente, quero provocar uma reflexão sobre algo que considero a espinha dorsal de qualquer obra artística que busca transcender o efêmero: a necessidade do estudo, da fundamentação e do trabalho conceitual antes de conceber e confeccionar um quadro, uma escultura, um livro.
Com a presença de cada vez mais de ofertas de recursos tecnológicos, muitos facilitadores, na expressividade por meio das artes, cada vez mais discutida – e deve ser! – é crucial distinguirmos entre o impulso criativo espontâneo e a construção artística consciente.
O Gesto x O Gesto Pensado
Para facilitar a transmissão do meu pensamento, imaginemos dois pintores diante de uma tela em branco de 1,20 x 1,20 metros.
O primeiro pintor, impulsionado por uma energia vibrante, agarra o pincel e, em um frenesi que ele acredita ser puramente instintivo, deposita as tintas sobre a tela. As formas surgem, as cores se misturam, e o resultado é uma explosão de emoção. É um ato visceral, certamente autêntico à sua experiência naquele momento. Ele pode sentir que a obra “aconteceu” através dele, quase sem sua intervenção consciente. É o que poderíamos chamar de uma manifestação do eu, crua e imediata.
Agora, observamos o segundo pintor. Antes mesmo de tocar a tela, ele já passou horas, dias, talvez semanas, imerso em pesquisa. Em sua saga, adota a teoria das cores, já tem estudado a anatomia de formas que pretende abstrair ou estilizar, analisou a composição de mestres do passado e explorou correntes filosóficas ou literárias que ressoam com a mensagem que ele quer transmitir.
Ele criou esboços, fez estudos de luz e sombra, experimentou paletas de cores, construiu maquetes mentais ou físicas. Quando finalmente ele pega o pincel, cada traço, cada cor, cada forma já carrega consigo uma intencionalidade. Não que o instinto não esteja presente – ele está, mas é um instinto refinado, educado, direcionado por um arcabouço sólido de conhecimento e um conceito bem definido.
A Diferença Não Está na Beleza, Mas na Ressonância
A beleza é subjetiva, e ambos os quadros podem ser esteticamente agradáveis para diferentes públicos. No entanto, a grande diferença reside na capacidade de ressonância e profundidade da obra.
O quadro do primeiro pintor, embora possa evocar emoções e ser visualmente impactante, corre o risco de ser uma experiência pontual, sem camadas mais profundas de significado a serem desvendadas. É um reflexo do momento, e pode ser difícil para o observador se conectar com ele em um nível mais intelectual ou simbólico.
Já o quadro do segundo pintor, por ser fundamentado em estudo e conceito, oferece múltiplas camadas de leitura. Cada elemento na tela pode ser uma pista, uma referência, um símbolo que convida o observador a uma jornada de descoberta. A obra ganha densidade, torna-se um convite à interpretação, um campo fértil para o diálogo entre o artista e o público. É um objeto não apenas de contemplação, mas de reflexão.
Por que a Fundamentação é Crucial?
O lastro da fundamentação libera a criatividade, não a limita. Parece paradoxal, mas quanto mais você estuda e entende os “porquês” da arte – a teoria das cores, a composição, a história, a semiótica, a filosofia – mais ferramentas você tem para subverter as regras, para inovar. O conhecimento liberta você das limitações da intuição pura e simples, permitindo que suas ideias se manifestem de formas mais complexas e originais.
Desenvolve uma voz artística sólida. Um artista que estuda e reflete sobre seu trabalho desenvolve uma linguagem própria, uma assinatura que vai além do estilo visual. Sua obra passa a carregar uma narrativa, uma visão de mundo, um posicionamento que é reconhecível e significativo.
A pesquisa e o projeto permitem a comunicação profunda. A arte é uma forma de comunicação. Um conceito bem elaborado permite que o artista transmita ideias, emoções e mensagens de forma mais eficaz e impactante. O espectador não apenas “vê”, mas “sente” e “entende” em diferentes níveis.
Para além, o estudo permite a conexão com a História da Arte. Estudar é também dialogar com os mestres do passado e do presente. É entender de onde viemos, o que já foi explorado e, assim, encontrar seu próprio lugar nessa vasta tapeçaria da criação humana.
Em última análise, a diferença entre os dois pintores não é uma questão de talento inato, mas de consciência artística. Enquanto o primeiro confia na explosão momentânea, o segundo constrói um universo de inúmeras camadas e nuances. E é nesse universo, estruturado sobre pilares de conhecimento e intenção, que a verdadeira arte torna-se atemporal, mais profunda e, por consequência, muito mais interessante e rica.
Deselegante se eu desse aqui exemplo de artistas rasos em suas obras. Todavia, cito que Gil Vicente é o exemplo do profundo, do avesso, do interno, do subliminar da percepção e da arte estudada e infinitamente bem fundamentada.
Adriana Duarte
@pinturices
De Aqui, 13/07/2025.
