Mais um amanhecer de frente para um pé de girassol. Poderia ser mais um pé dentre tantos que plantei em meio a vasos de outras plantas com mera pretensão de testar velhas sementes de uma comida de passarinho adquirida em anos passados.
O pé de girassol, o tal que miro por largos minutos tem algo que me comove, me diz coisas, muitas coisas. Sim, ainda que não esboce palavra nenhuma, fala pelas sete flores de tamanhos variados, em diferentes alturas e transgride o modus vivende dos girassóis que existem por aí.
Acredite. Diferente das cores que denotam o tempo de abertura de cada flor, diferente dos tamanhos de cada um dos girassóis e das variadas alturas. Acredite, em um só pé há sete girassóis e não apenas um.
E o que isso me diz esse pé de girassol fora dos padrões? Bom, de início, que se trata de uma planta hiperativa com gana de ter muitas flores. Penso que pode ser algo curioso ter esta vontade de produzir tanta beleza e alimento para as abelhas e mais insetos que se achegam, além de alguns pequenos pássaros.
E ainda que sem palavras ditas ou escritas, me remete a tal planta com sete flores, pétalas amarelas em vários tons dessa cor e centro com pequenitas flores marrons que a sua atitude desafiadora dentro de um jarro com aloé vera, a artistas que fizeram muito e fizeram diferente.
Tenho uma lista dos que me encantam, mas semana passada, ao viajar à Málaga, na Espanha, vi muitos campos de trigo, com aquele amarelo champagne típico do trigo no campo, intercaladas com plantações de milhares de pequenos girassóis. De imediato, fui arremessada às telas e campos de Vincent Van Gogh, com os mesmos itens compositores.
Senti-me teletransportada para os campos e tempos de Van Gogh até em termos físicos. E que privilégio é sentir isso. Ali, em meio a pequenitos girassóis e a respirar e ter na cara o vento ameno de verão atípico, lembrei-me também do feroz Tintoretto. Pintor italiano, Jacopo Robusti (1518-1594) nascido em Veneza, Itália, é conhecido pelo dramático uso da luz, da dinâmica nas composições e visível energia impressa em sua obra.
Assim como meu pé com sete girassóis, penso em Tintoretto pela fúria em produzir. Se alguma figura na composição não caía bem diante de todo o resto, cobria-a de branco e pintava outro item na obra. Assim, sem maiores dramas ou pudores. E, principalmente, com fúria de fazer existir as figuras que lhe vinham à mente.
Um dos grandes nomes do Maneirismo e um precursor do Barroco, este artista de efeitos teatrais em elementos na diagonal que conferia maior movimento e dramaticidade às suas obras, chegou a frequentar o atelier de Tiziano (1490-1576), outro grande pintor Italiano, este renascentista. No entanto, Tintoretto obteve maior conhecimento e domínio observando outros pintores e utilizando-se de sua força criativa e intuitiva.
Em se comparando com Vincent Van Gogh (1853-1890), diferentes os dois gigantes das Artes para além das cores, dos estilos artísticos e três séculos que os separam, apresentam semelhanças quando ambos imprimem energia e imenso movimentos em suas respectivas obras.
Quis ao escrever aqui, organizar meus pensamentos em cascatas e unir em fio invisível o pé de girassol híper produtivo, a fúria profícua de Tintoretto e os girassóis vivíssimos ao vento, de Van Gogh. Os três demonstram movimentos quase viscerais em produzir e produzir. Os três demonstram a fúria, energia, movimento. Todavia, Tintoretto, o furioso, não pintava girassóis.
